"Vela, a luz que leva ao mar / É minha luz / Vento, a voz que leva ao céu / É minha voz"
"Wanna break from the ads?" Esse meme ficou popular um tempo atrás, onde era uma propaganda no final das músicas, anunciando a sua assinatura Premium. Depois de tantas variações do meme, uma dessas edições/remix que nos é exposta por acaso, me chamou a atenção uma, que vinha com um toque de saxofone, som sexy e noturno. Ainda bem que o aplicativo Shazam identificou rapidamente. "Quarto de Hotel" era a música, trilha sonora do filme franco-brasileiro "A Virgem de Saint Tropez".
Para minha surpresa, composto pelo paulista Hareton Salvanini. Movido pela curiosidade, busco mais da obra para ouvir além das trilhas sonoras — A Virgem de Saint Tropez (1974), Xavana, Uma Ilha do Amor (1981) e Vozes do Medo, censurada pela ditadura militar — e encontro um álbum que não é trilha. SP/73, lançado em 1973 pela Continental Records.
E na primeira ouvida, foi extremamente cativante. O estilo é difícil de rotular (talvez seja melhor assim), ainda mais que cada música é uma experiência diferente. E não é pra menos. O álbum foi gravado com a orquestra completa do Teatro Municipal de Campinas, em parceria com seu irmão Ayrton Salvanini, diretor de teatro, responsável pelo conceito e pelas letras. Segundo Ayrton, o disco levou no máximo uma semana pra ficar pronto.
O que me chama a atenção do álbum, além do já citado, é que não é como se fosse cantado. Se parece um monólogo de teatro, um "teatro aos ouvidos" — é como se fosse alguém à beira do colapso, desesperado e angustiado. As músicas "Viver" e "Irracional" explicam bem. Hareton não canta, ele grita, mas de forma cansada e angustiada, sobre as pessoas que não têm mais coração, que as lágrimas derramadas são levadas para o mar, os seus adeuses que se perdem ao vento e o deixam só, se sentindo só.
E os seus gritos não foram ouvidos. O álbum vendeu mal. Era experimental demais pro público brasileiro de 1973, que estava voltado pra Tropicália e MPB convencional. O SP/73 não se encaixava em nada — não era bossa nova, não era tropicalista, não era rock. Passou despercebido. E o golpe final: a Continental Records derreteu boa parte das cópias restantes para prensar mais discos dos Secos & Molhados, que estavam estourando na época. O álbum ganhou o prêmio de Melhor Álbum Estrangeiro pela Jazz Journal do Japão — reconhecido do outro lado do mundo enquanto era derretido no próprio país.
Com a popularização do meme, com a versão da música de Hareton, o seu grito pode ser ouvido, mas o vento levou novamente.